Comorbidades no autismo: quando investigar além do TEA
- Fábio Hormigo

- 27 de jul.
- 8 min de leitura
Atualizado: 30 de jul.

Comorbidades no autismo são condições de saúde, do neurodesenvolvimento ou da saúde mental que podem existir ao mesmo tempo que o Transtorno do Espectro Autista (TEA). TDAH, ansiedade, epilepsia, deficiência intelectual e alterações persistentes do sono, da alimentação ou do sistema gastrointestinal estão entre as condições coexistentes estudadas com maior frequência.
Isso não significa que toda pessoa autista terá uma comorbidade nem que um comportamento isolado confirme outro diagnóstico. A pergunta mais útil não é “isso faz parte do autismo ou é outra coisa?” de forma automática, mas “qual explicação descreve melhor o padrão, a duração, o contexto e o impacto observado nesta pessoa?”.
Em resumo:
Condições coexistentes são frequentes no autismo, mas as estimativas variam conforme idade, população, instrumentos e tipo de estudo. O mesmo sinal pode ter explicações diferentes. Por isso, a avaliação precisa considerar critérios próprios para cada condição, história do desenvolvimento, funcionamento cotidiano e informações de mais de um ambiente [1,2].
O que significa ter uma comorbidade no autismo?
A palavra “comorbidade” indica a presença simultânea de duas ou mais condições. Também é possível usar “condição coexistente”, expressão que ajuda a lembrar que uma condição não é necessariamente causada pela outra.
O DSM-5 descreve o TEA por dois conjuntos centrais de características: diferenças persistentes na comunicação e na interação social e padrões restritos ou repetitivos de comportamentos, interesses ou atividades. O manual permite registrar, quando presentes, comprometimento intelectual ou de linguagem, condições médicas ou genéticas e outros transtornos do neurodesenvolvimento, mentais ou comportamentais [2].
Portanto, autismo e TDAH, autismo e deficiência intelectual ou autismo e um transtorno de ansiedade podem ser diagnosticados na mesma pessoa quando os critérios de cada condição são preenchidos. Ao mesmo tempo, o DSM-5 alerta que características semelhantes podem aparecer em diagnósticos diferentes e exigem julgamento clínico, não uma simples contagem de sinais [2].

Dois erros que a avaliação precisa evitar
O primeiro erro é atribuir toda mudança ao autismo. Uma piora persistente no sono, uma redução marcante da participação ou episódios de alteração de consciência não devem ser explicados automaticamente como “comportamento do TEA”. Essa leitura pode atrasar a investigação de uma condição tratável ou de uma necessidade que a pessoa não consegue comunicar com facilidade.
O erro oposto é transformar cada manifestação em um diagnóstico separado. Rigidez, repetição, agitação, evitação e irritabilidade podem ter mais de uma função e não bastam, sozinhas, para confirmar TOC, TDAH, ansiedade ou transtorno bipolar.
Uma revisão teórica publicada em 2025 chama atenção para o risco de fragmentar a experiência autista e de interpretar comportamentos apenas pela aparência [3]. Essa reflexão é útil como alerta, mas não demonstra que as comorbidades sejam apenas “partes do autismo”. A posição mais segura é investigar tanto a sobreposição de sinais quanto a possibilidade de uma condição realmente coexistente.
O que os estudos mostram sobre frequência?
Uma revisão sistemática e metanálise reuniu 340 publicações, com aproximadamente 590 mil participantes autistas. Os autores analisaram 38 condições em prevalência pontual, 27 ao longo da vida e três sem separar esses dois tipos de medida [1].
Algumas estimativas agrupadas foram:
Condição ou problema coexistente | Estimativa agrupada |
Problemas de sono-vigília | 43% (IC 95%: 36%–50%) |
Problemas gastrointestinais | 39% (32%–46%) |
TDAH | 37% (28%–46%) |
Transtornos de ansiedade | 35% (30%–39%) |
Deficiência intelectual | 33% (26%–41%) |
Epilepsia | 16% (14%–18%) |
Esses números não são uma previsão para uma criança específica. Quase todas as metanálises apresentaram heterogeneidade elevada, o que significa que os resultados variaram bastante entre os estudos. Idade, instrumentos diagnósticos, recrutamento clínico ou populacional e características das amostras influenciaram as estimativas [1].
A idade também fez diferença. Nos subgrupos analisados, TDAH e problemas de sono foram mais frequentes em estudos com crianças e adolescentes, enquanto epilepsia e transtornos depressivos tiveram estimativas maiores nos estudos com adultos. Isso reforça que o acompanhamento precisa considerar mudanças ao longo da vida, sem aplicar uma porcentagem geral a todas as pessoas [1].

Quais condições merecem atenção?
TDAH e transtornos de ansiedade
Desatenção, impulsividade e necessidade intensa de movimento podem ocorrer no TEA e no TDAH. O diagnóstico de TDAH deve ser considerado quando essas manifestações formam um padrão persistente, aparecem em mais de um ambiente, interferem no funcionamento e excedem o esperado para a idade ou o nível de desenvolvimento [2].
Também é necessário verificar outras explicações. Privação de sono, ansiedade, dificuldades de compreensão, desconforto físico e demandas mal ajustadas podem reduzir a atenção ou aumentar a agitação. Identificar o contexto não “anula” o comportamento; ajuda a evitar uma conclusão apressada.
Na ansiedade, a avaliação observa medos, preocupações, evitação, sintomas físicos, duração e prejuízo. A necessidade de previsibilidade ou o desconforto com mudanças podem fazer parte do TEA, mas também podem coexistir com um transtorno de ansiedade. O ponto decisivo é o conjunto de critérios e o impacto, não uma única reação.
Sono e sistema gastrointestinal
A metanálise encontrou 43% para problemas de sono-vigília, 39% para problemas gastrointestinais e 32% para transtornos alimentares e da alimentação. Os próprios autores separaram “problemas” de diagnósticos formais em algumas categorias, porque os estudos utilizaram definições diferentes [1].
Essa distinção importa. Dormir pouco por alguns dias não é o mesmo que um transtorno do sono. Ter preferência por determinados alimentos não confirma um transtorno alimentar. Ainda assim, alterações persistentes podem afetar disposição, atenção, participação nas refeições e rotina familiar.
Em pessoas com comunicação oral limitada, mudanças no sono ou na alimentação e aumento de comportamentos desafiadores podem ser os sinais mais visíveis de ansiedade, depressão ou outra necessidade clínica, como observa o DSM-5 [2]. Esses sinais não revelam a causa, mas ajudam a equipe a decidir o que precisa ser investigado.
Epilepsia e outras condições neurológicas
A estimativa agrupada de epilepsia foi de 16%, com variação entre faixas etárias [1]. Como movimentos repetitivos também podem fazer parte do TEA, não é seguro interpretar um episódio apenas pela aparência. Eventos novos ou incomuns devem ser relatados ao profissional responsável para avaliação adequada.
Perda de habilidades previamente adquiridas ou outras mudanças neurológicas também exigem investigação apropriada. O DSM-5 inclui epilepsia entre as condições médicas que podem estar associadas ao TEA, mas a definição de exames e diagnóstico pertence à equipe habilitada [2].
Deficiência intelectual, linguagem e coordenação motora
Autismo e deficiência intelectual são condições distintas, embora possam coexistir. O DSM-5 orienta que a avaliação intelectual considere tanto capacidades cognitivas quanto funcionamento adaptativo, isto é, como a pessoa realiza tarefas conceituais, sociais e práticas no cotidiano [2].
A ausência de fala oral não permite concluir, por si só, que existe deficiência intelectual. Da mesma forma, um bom vocabulário não garante autonomia em planejamento, segurança ou organização. O perfil pode ser irregular e precisa ser analisado com instrumentos adequados e informações de diferentes fontes.
Dificuldades de linguagem, aprendizagem e coordenação motora também podem coexistir. A avaliação deve distinguir o que é esperado dentro do perfil do TEA, o que excede esse perfil e o que necessita de apoio específico.

Como uma condição coexistente pode aparecer no cotidiano?
Muitas famílias percebem primeiro uma mudança, não um “sintoma típico”. Vale registrar quando começou, com que frequência ocorre, quanto dura e em quais ambientes aparece. Exemplos de mudanças que merecem conversa com a equipe incluem:
alteração persistente no padrão de sono ou no nível habitual de energia;
redução incomum da participação na escola, em casa ou em atividades antes aceitas;
mudança marcante de apetite, evacuação ou tolerância às refeições;
aumento de choro, irritabilidade ou isolamento sem explicação conhecida;
perda de habilidades já utilizadas;
episódios novos com alteração de consciência ou movimentos involuntários.
Nenhum desses itens confirma uma comorbidade. O registro ajuda a diferenciar um evento passageiro de um padrão e reduz a dependência da memória durante a consulta.
Como é feita a avaliação?
A avaliação começa pela formulação do caso, e não por um teste isolado. História do desenvolvimento, saúde geral, medicamentos em uso, sono, alimentação, comunicação, aprendizagem, ambiente e mudanças recentes podem ser relevantes. Relatos da própria pessoa autista, quando possíveis, e de familiares, escola e profissionais ajudam a comparar contextos.
Depois, cada hipótese precisa ser confrontada com seus critérios. A equipe procura saber se o sinal é melhor explicado pelas características centrais do TEA, por uma resposta ao ambiente, por uma condição médica, por outro transtorno ou por uma combinação desses fatores.
O DSM-5 ressalta que treinamento e experiência clínica são necessários para diferenciar sintomas compartilhados e respostas transitórias ao estresse de condições com relevância clínica [2]. A composição da equipe depende da pergunta apresentada; não existe uma lista universal de especialistas ou exames para todas as pessoas autistas.

O que muda quando uma comorbidade é identificada?
Um diagnóstico adicional só é útil quando melhora a compreensão do caso e orienta decisões. Ele pode indicar a necessidade de um encaminhamento, de monitoramento, de adaptações no ambiente ou de objetivos mais específicos para comunicação, autonomia, aprendizagem e participação.
O foco não deve ser acumular rótulos. Deve ser identificar o que está interferindo na vida da pessoa, quais riscos precisam ser acompanhados e quais apoios têm uma finalidade clara. Também é importante revisar as hipóteses quando a evolução não corresponde ao esperado.
A reflexão sobre sobreposição de sintomas contribui ao lembrar que comportamentos têm contexto e função [3]. Porém, essa cautela não deve ser usada para negar dor, epilepsia, ansiedade, TDAH ou outras condições quando os critérios estão presentes. Cuidado individualizado significa evitar tanto a omissão quanto o excesso diagnóstico.

Perguntas frequentes sobre comorbidades no autismo
TDAH faz parte do autismo?
Não. TDAH e TEA são condições distintas, mas podem coexistir. O diagnóstico de TDAH exige um padrão próprio de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade, com prejuízo e presença em mais de um contexto [2].
Todo comportamento repetitivo indica TOC?
Não. Comportamentos repetitivos fazem parte dos critérios do TEA. No TOC, a avaliação investiga obsessões, compulsões, sofrimento, tempo gasto e prejuízo. A aparência semelhante não substitui o diagnóstico diferencial.
Problema de sono é sempre uma comorbidade?
Não. “Problema de sono” é uma descrição ampla. Persistência, frequência, impacto durante o dia e outros fatores clínicos ajudam a definir se existe um transtorno ou outra causa que precisa de atenção.
Uma pessoa autista pode ter várias condições coexistentes?
Sim. O DSM-5 permite diagnósticos múltiplos quando os critérios são preenchidos [2]. Cada condição deve ser descrita separadamente e relacionada às necessidades reais da pessoa.
As porcentagens dos estudos valem para meu filho?
Não de forma direta. São estimativas de grupos e variam conforme idade, método, população e instrumento. Elas ajudam a definir temas que merecem atenção, mas não determinam o que ocorre em um indivíduo [1].
Uma comorbidade pode ser confundida com o próprio autismo?
Pode. Isso acontece quando sinais de outra condição são atribuídos automaticamente ao TEA. O contrário também ocorre: características do autismo podem ser interpretadas como vários diagnósticos separados. Uma avaliação criteriosa busca evitar os dois erros.
Conclusão
Comorbidades no autismo são frequentes, mas não podem ser presumidas por uma lista de comportamentos. A melhor avaliação combina critérios diagnósticos, história, contexto, funcionamento e mudanças ao longo do tempo.
Para as famílias, observar padrões e compartilhar registros objetivos pode tornar a conversa com a equipe mais produtiva. Para os profissionais, o desafio é reconhecer condições coexistentes sem fragmentar a pessoa. O objetivo final é organizar apoios proporcionais, seguros e coerentes com a vida cotidiana.

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Aviso informativo: este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui uma avaliação individualizada realizada por profissionais habilitados. Orientações e intervenções devem considerar o histórico, as necessidades e as características de cada criança.
Referências
Micai M, Fatta LM, Gila L, Caruso A, Salvitti T, Fulceri F, et al. Prevalence of co-occurring conditions in children and adults with autism spectrum disorder: a systematic review and meta-analysis. Neurosci Biobehav Rev. 2023;155:105436. doi:10.1016/j.neubiorev.2023.105436.
American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed; 2014.
Souza RS. Comorbidades no autismo – hipótese de sobreposição de sintomas contrapondo a tendência do acúmulo de transtornos, a luz da abordagem existêncial. Revista Foco. 2025;18(7):e9211. doi:10.54751/revistafoco.v18n7-073.



