Arteterapia no autismo: possibilidades, limites e cuidados
- Fábio Hormigo

- 29 de jul.
- 8 min de leitura
Atualizado: 11 de ago.

Quando uma família busca informações sobre arteterapia no autismo, a pergunta central costuma ser se essa abordagem pode ajudar a criança. As fontes disponíveis permitem uma resposta equilibrada: algumas intervenções artísticas apresentaram resultados positivos, mas a evidência ainda é limitada e não permite prever o efeito para uma criança específica.
Também é importante entender o alcance do termo. Na principal revisão anexada, arteterapia aparece como uma categoria ampla, que reúne artes visuais, música, drama, movimento e propostas multimodais.[1]
A seguir, você encontrará uma explicação prática sobre o que já foi observado, quais dúvidas permanecem e como conversar sobre essa possibilidade de forma individualizada e segura.
Em resumo:
A arteterapia reúne linguagens criativas usadas com finalidade terapêutica. Em crianças autistas, pode oferecer caminhos não verbais e multissensoriais para expressão, participação e desenvolvimento de habilidades. Os estudos relatam resultados promissores, mas misturam modalidades diferentes e apresentam limitações metodológicas. Por isso, a escolha deve considerar objetivos, preferências e acompanhamento individualizado, sem promessas de resultado.
O que é arteterapia?
Arteterapia é uma intervenção que utiliza processos criativos com objetivos terapêuticos, dentro de uma relação organizada e acompanhada. Não se resume a produzir um desenho bonito nem a ensinar uma técnica artística.
A revisão sistemática considera diferentes linguagens: pintura, desenho, modelagem e colagem nas artes visuais; canto e instrumentos na música; jogos teatrais e dramatização; movimento; além de combinações entre modalidades. Essa definição ampla ajuda a entender a literatura, mas também exige cuidado ao comparar resultados de propostas muito diferentes.[1]
O foco está no processo: escolher, experimentar, criar, comunicar e refletir de acordo com as possibilidades da criança. Um estudo sobre desenho ressalta que a habilidade artística não era o objetivo da atividade. Portanto, não é necessário “saber desenhar” para participar.[2]
Desenhar, pintar ou modelar em casa e na escola pode ser significativo e prazeroso. Ainda assim, uma atividade artística cotidiana não se torna automaticamente arteterapia; a finalidade terapêutica, os objetivos definidos, o acompanhamento e a avaliação do processo fazem diferença.

Por que a arte pode ser uma forma de participação?
A arte pode abrir formas de participação que não dependem apenas da fala. Isso pode ser relevante para crianças que se expressam melhor por imagens, sons, gestos, movimentos ou escolhas de materiais.[1]
Os autores da revisão propõem a Teoria da Autodeterminação como uma possível lente para compreender esse processo. A possibilidade de escolher pode favorecer autonomia; concluir uma criação pode apoiar a percepção de competência; e produzir algo com um terapeuta ou grupo pode favorecer conexão. Trata-se de uma explicação conceitual proposta pelos autores, não de um mecanismo comprovado em todos os estudos.[1]
As atividades também podem envolver coordenação motora, atenção compartilhada, flexibilidade e experiências sensoriais. Esses elementos podem ser trabalhados em objetivos específicos, mas a riqueza de cores, texturas, sons ou movimentos precisa ser adaptada. Uma proposta agradável para uma criança pode não ser adequada para outra.[1,3]
Para muitas famílias, reconhecer essa individualidade reduz a pressão por uma resposta única e ajuda a observar a participação da criança com mais cuidado.

O que as pesquisas encontraram?
As pesquisas indicam possibilidades de benefício, mas ainda não demonstram uma eficácia universal da arteterapia para crianças e adolescentes autistas.[1]
A revisão sistemática de Wei, Lai e Ho pesquisou oito bases e incluiu 12 ensaios clínicos randomizados, publicados entre 2017 e 2024, com 899 participantes de 5 a 11 anos. Seis estudos utilizaram música, quatro drama, um pintura e um uma combinação de música e movimento.[1]
Entre os estudos que avaliaram cada resultado:
cinco de sete encontraram melhora significativa em comunicação ou interação social;
três de três relataram redução de escores globais relacionados ao TEA;
dois de dois encontraram resultados positivos em ansiedade ou estresse;
dois de dois relataram melhora motora;
dois de três observaram resultados positivos em linguagem;
dois de dois encontraram mudanças em medidas de desenvolvimento neurológico.[1]
Os resultados comportamentais foram menos consistentes: um estudo encontrou melhora em hábitos de sono, enquanto outro não identificou mudança significativa em comportamentos mal-adaptativos. A redução de escores relacionados ao TEA não significa cura do autismo; indica apenas mudança nas medidas utilizadas por cada pesquisa.[1]
Esses números mostram quantos estudos relataram diferenças significativas, não o tamanho médio do efeito. Como os dados não permitiram uma metanálise convincente, não é possível concluir qual modalidade funciona melhor ou para qual perfil de criança.[1]
Também é importante separar resultado estatístico de relevância cotidiana. Uma diferença em uma escala pode ser real no estudo, mas a família precisa saber se ela corresponde a mudanças observáveis, como maior participação, menos sofrimento ou melhor comunicação em situações importantes. As fontes não estabelecem um único limite para essa relevância.

Por que os resultados ainda não são conclusivos?
Os resultados ainda não são conclusivos porque a base de evidências é pequena, heterogênea e metodologicamente frágil.[1-3]
As principais limitações são:
Modalidades diferentes reunidas: dos 12 ensaios, apenas um avaliou uma intervenção baseada em pintura. A maior parte investigou música ou drama. A evidência geral não deve ser apresentada como prova específica para desenho ou pintura.
Risco de viés: oito estudos foram classificados com alto risco geral de viés. Apenas um utilizou análise por intenção de tratar, e a pontuação média de qualidade metodológica foi 5,92 em 13 pontos.[1]
Amostras e períodos reduzidos: 11 estudos tinham menos de 64 participantes por grupo; oito duraram três meses ou menos; e somente três relataram acompanhamento posterior.[1]
Inconsistências no estudo de desenho: o resumo informa 131 crianças de 3 a 8 anos, enquanto os métodos descrevem 108 crianças de 3 a 12 anos, distribuídas entre desenho, com 55 participantes, e controle, com 53. A descrição do grupo comparador também varia no artigo.[2]
Uma revisão de literatura em português descreve pintura, argila, colagem e música como técnicas promissoras para ansiedade, mas não informa claramente o número final de estudos nem oferece síntese quantitativa comparável à revisão sistemática. A própria autora reconhece a necessidade de pesquisas adicionais e de adaptação individual.[3]
Em conjunto, as fontes sustentam a expressão “pode ajudar”, mas não as afirmações “funciona para todas as crianças” ou “resultado comprovado”.

Como individualizar uma proposta de arteterapia?
A proposta deve ser individualizada a partir de objetivos claros, das preferências da criança e da forma como sua participação será acompanhada.[1,3]
Antes de considerar uma intervenção, a família pode levar algumas perguntas para a conversa com a equipe responsável:
Qual habilidade, dificuldade ou necessidade será o foco?
Por que pintura, música, drama ou outra modalidade foi escolhida?
Como serão respeitadas as preferências, formas de comunicação e respostas sensoriais?
O formato será individual ou em grupo, e qual é a justificativa?
Quais indicadores serão observados e quando o plano será reavaliado?
Qual é a formação e a experiência do profissional com a proposta e com crianças autistas?
Durante o processo, interesse, recusa, cansaço, necessidade de pausa ou mudança de material são informações importantes. A criança não precisa se adaptar a qualquer atividade para que a intervenção seja considerada bem-sucedida. Ajustar a proposta pode ser parte do cuidado, e não sinal de falta de esforço da criança ou da família.
Registros definidos com a equipe, como tempo de participação, necessidade de apoio, comunicação espontânea ou tolerância à atividade, podem ajudar a discutir mudanças sem depender somente da impressão de um dia. Esses indicadores devem estar ligados ao objetivo terapêutico, e não ao desempenho artístico.
A revisão encontrou seis estudos individuais e seis em grupo. Essa divisão acompanhou principalmente o tipo de arte utilizado e não prova que um formato seja superior. A escolha precisa estar relacionada aos objetivos e ao conforto da criança.[1]

A arteterapia substitui outras intervenções?
Não. As fontes não sustentam que a arteterapia substitua outras intervenções, avaliações ou apoios definidos de forma individualizada.[1]
Ela pode ser considerada como abordagem complementar quando houver objetivo coerente, profissional preparado e acompanhamento dos resultados. A decisão não deve ser tomada apenas porque a criança é autista ou gosta de arte; gostar de desenhar pode ser um interesse importante, mas não determina sozinho uma necessidade terapêutica.
Da mesma forma, uma melhora em determinado escore não representa cura, normalização ou garantia de evolução. O foco responsável está na participação, no bem-estar e nas necessidades concretas daquela criança.

Quais são as terapias com base na Ciência ABA para autismo?
Ao considerar intervenções para pessoas com transtorno do espectro autista (TEA), é importante priorizar práticas fundamentadas em evidências científicas. Isso significa buscar abordagens que tenham sido estudadas de forma adequada e que apresentem resultados favoráveis para determinados objetivos e perfis de crianças, adolescentes ou adultos autistas.
A escolha das intervenções deve ser individualizada e discutida com a equipe multidisciplinar responsável pelo acompanhamento. Além das necessidades relacionadas ao desenvolvimento, é importante considerar as preferências, os interesses, o perfil sensorial e a forma como cada pessoa participa das atividades. Uma proposta pode ser agradável e significativa para alguém, mas desconfortável ou pouco adequada para outra pessoa.
Entre as áreas frequentemente presentes no acompanhamento de pessoas autistas estão a análise do comportamento aplicada, conhecida como ABA, psicologia, a fonoaudiologia e a terapia ocupacional. Conforme os objetivos definidos para cada pessoa, esses profissionais podem trabalhar aspectos como comunicação, autonomia, participação nas atividades cotidianas, interação social e envolvimento em contextos familiares, escolares e de lazer.
A musicoterapia é outra intervenção baseada em evidência científica, onde o desenvolvimento é via contato com instrumentos, ritmos, sons e canto, para trabalhar objetivos definidos de forma individualizada.

Perguntas frequentes
Toda criança autista pode se beneficiar?
Não necessariamente. A resposta pode variar conforme objetivos, idade, preferências, comunicação, perfil sensorial, formato e qualidade da intervenção. A evidência atual mostra resultados médios de grupos e não permite prever a resposta individual.[1]
A criança precisa saber desenhar?
Não. O objetivo terapêutico não é avaliar talento ou beleza do produto. No estudo de desenho, as crianças eram informadas de que a habilidade artística não era importante.[2]
A arteterapia pode ajudar na ansiedade?
Pode contribuir em alguns casos, mas a evidência é limitada. Dois ensaios da revisão relataram melhora em medidas de estresse ou ansiedade, enquanto um deles não encontrou mudança na ansiedade ligada à situação imediata. O estudo hospitalar também mostrou resultados apenas em alguns momentos.[1,2]
É melhor fazer individualmente ou em grupo?
Os dois formatos aparecem na literatura. A revisão encontrou seis estudos individuais e seis em grupo, mas não estabeleceu superioridade geral. A decisão deve considerar objetivo, modalidade, conforto e forma de interação da criança.[1]
Quanto tempo a arteterapia precisa durar?
Não há duração ideal estabelecida pelas fontes. As pesquisas variaram em frequência e tempo, e a maioria durou três meses ou menos. O plano precisa prever acompanhamento e reavaliação, em vez de assumir um prazo igual para todas as crianças.[1]
Um desenho pode ser usado para diagnosticar autismo?
Não. O estudo que explorou desenhos como possível recurso de triagem tratou de ansiedade em um procedimento específico, não de diagnóstico de autismo. Um desenho isolado não deve ser usado pela família para concluir um diagnóstico ou determinar exatamente o estado emocional da criança.[2]
Conclusão
A arteterapia pode oferecer caminhos criativos para expressão, participação e desenvolvimento de habilidades, especialmente quando respeita escolhas e formas diversas de comunicação. As pesquisas anexadas apresentam sinais promissores, mas também mostram que o campo reúne modalidades muito diferentes e estudos ainda frágeis.
Para a família, o passo mais seguro é transformar a pergunta “arteterapia funciona?” em perguntas mais concretas: qual é o objetivo, por que essa modalidade foi escolhida, como a criança participa e como os resultados serão acompanhados. Cada criança pode responder de maneira própria.

Como a Clínica Conecta Kids pode orientar sua família?
Se sua família tem dúvidas sobre o desenvolvimento da criança ou sobre como buscar uma avaliação individualizada, converse com a equipe da Clínica Conecta Kids, que atende Guarulhos e Grande São Paulo. O contato é uma oportunidade de orientação geral, sem diagnóstico ou promessa de resultado.
Aviso informativo: este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui uma avaliação individualizada realizada por profissionais habilitados. Orientações e intervenções devem considerar o histórico, as necessidades e as características de cada criança.
Referências
Wei S, Lai AHY, Ho HWH. The Effectiveness of Art Therapy on Children and Adolescents with ASD: A Systematic Review of RCTs. Healthcare. 2025;13:2960. DOI: 10.3390/healthcare13222960. https://doi.org/10.3390/healthcare13222960
Yao J, Wang Q, Qiao Y, Cai Y, Shen H. Assessment of the effectiveness of art drawing for children with ASD and prediction of risk factors. Medicine. 2026;105(1):e46881. DOI: 10.1097/MD.0000000000046881. http://dx.doi.org/10.1097/MD.0000000000046881
Silva VL. Técnicas de arteterapia para reduzir a ansiedade em crianças autistas: uma revisão da literatura. PhD Scientific Review. 2025;5(3):83-99. DOI: 10.5281/zenodo.15041954. https://doi.org/10.5281/zenodo.15041954
