Andar na ponta dos pés no autismo: o que observar
- Fábio Hormigo

- há 2 dias
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Atualizado: há 2 dias

Perceber que uma criança anda com os calcanhares elevados costuma despertar dúvidas: isso faz parte do desenvolvimento, está relacionado ao autismo ou indica alguma alteração física? A resposta não pode ser encontrada observando apenas esse comportamento.
Andar na ponta dos pés é um padrão motor documentado em algumas crianças autistas, mas não constitui, isoladamente, um critério diagnóstico do transtorno do espectro autista. O significado depende de fatores como início, frequência, persistência, mobilidade dos tornozelos, presença de assimetria e impacto nas atividades da criança. [1,2]
Este artigo apresenta o que os estudos anexados permitem afirmar, quais explicações ainda são hipóteses e quais informações podem ajudar em uma avaliação individualizada.
Em resumo
Andar na ponta dos pés pode aparecer no autismo, mas não confirma o diagnóstico nem possui uma causa única estabelecida. As pesquisas apontam diferenças motoras e de marcha, enquanto a hipótese de uma causa predominantemente sensorial permanece sem confirmação. Persistência, assimetria, dificuldade para apoiar os calcanhares, desconforto e impacto nas atividades merecem ser discutidos com profissionais habilitados.
O que significa andar na ponta dos pés?
É um padrão de marcha no qual o antepé faz contato com o chão enquanto o calcanhar permanece elevado ou toca o solo por pouco tempo. Também pode ser chamado de marcha digitígrada, marcha em equino ou toe walking.
Nos primeiros meses após a aquisição da caminhada independente, a criança ainda está organizando equilíbrio, apoio e transferência do peso corporal. Por isso, uma elevação ocasional dos calcanhares não deve ser interpretada fora do contexto do desenvolvimento.
A dúvida se torna mais relevante quando o padrão permanece, ocupa grande parte do tempo, ocorre sempre da mesma maneira ou interfere na mobilidade. A literatura também diferencia a marcha persistente daquela que aparece somente em certas situações, superfícies ou momentos. [2]

Andar na ponta dos pés é sinal de autismo?
Não. Esse padrão pode ser observado em algumas pessoas autistas, mas não confirma nem exclui o diagnóstico de TEA.
Os critérios do autismo estão relacionados a diferenças persistentes na comunicação e na interação social, combinadas com comportamentos, interesses ou atividades restritos e repetitivos. A marcha na ponta dos pés não substitui essa avaliação clínica ampla. [1]
Ela também pode aparecer sem uma causa identificada ou acompanhar diferentes condições motoras, neurológicas, ortopédicas ou hereditárias. Uma revisão sobre marcha idiopática ressaltou justamente que andar na ponta dos pés pode representar um padrão de marcha ou um sinal associado a outra condição. [3]
Em um estudo genético com 89 pessoas que apresentavam marcha idiopática — e que excluiu participantes autistas — 15, ou 16,9%, tinham variantes classificadas como patogênicas ou provavelmente patogênicas. O resultado não significa que toda criança precise de investigação genética. Ele mostra por que não é seguro atribuir automaticamente o padrão ao autismo sem considerar o restante do quadro. [4]

Por que esse padrão pode aparecer no autismo?
Ainda não existe uma explicação única confirmada. As hipóteses envolvem desenvolvimento motor, organização da marcha, características musculoesqueléticas, aprendizagem do movimento e processamento sensorial.
Um estudo com 112 crianças, adolescentes e adultos autistas comparou participantes com e sem marcha persistente na ponta dos pés. O grupo com esse padrão apresentou, em média, maiores dificuldades cognitivas, de linguagem e de habilidades motoras, além de maior pontuação de gravidade do autismo. Esses resultados representam associações: não demonstram que uma dessas características provoque a outra. [5]
Os autores consideraram seus dados mais compatíveis com a persistência de um padrão inicial de caminhada, anterior à consolidação de uma marcha com apoio plantar mais maduro. Essa é uma interpretação do estudo, não um consenso definitivo.
A causa é sempre sensorial?
Não. Diferenças sensoriais podem fazer parte da experiência de muitas pessoas autistas, mas os materiais analisados não comprovam que elas sejam a causa principal da marcha na ponta dos pés.
No estudo de Camia et al., os resultados do Short Sensory Profile foram semelhantes entre participantes autistas com e sem esse padrão. Os próprios autores reconhecem que o questionário é uma medida indireta respondida pelos responsáveis e que avaliações objetivas poderiam mostrar aspectos não detectados. [5]
Uma revisão anterior, voltada sobretudo à marcha idiopática, também concluiu que a associação com disfunção do processamento sensorial não estava comprovada. [3] Assim, sensibilidade a texturas ou busca por determinadas sensações pode ser investigada quando presente, mas não deve ser usada como explicação automática.

O que os estudos mostram sobre marcha e movimento no autismo?
As pesquisas indicam que podem existir diferenças motoras, mas os resultados variam muito entre as crianças e entre os métodos de avaliação.
Uma revisão sistemática com 17 estudos encontrou três achados relativamente mais consistentes em crianças autistas: passos mais largos, maior variabilidade entre uma passada e outra e menor estabilidade durante a caminhada. Comprimento da passada, velocidade, cadência, simetria e movimentos de joelhos e tornozelos apresentaram resultados conflitantes. [2]
Outra revisão sistemática reuniu nove estudos observacionais, com 856 crianças e adolescentes. Em conjunto, os participantes autistas obtiveram resultados inferiores em testes de aptidão física, incluindo componentes como força, resistência, flexibilidade e agilidade. Isso descreve tendências de grupos e não define as capacidades de uma criança específica. Também não prova que menor aptidão física cause a marcha na ponta dos pés. [6]
Essa distinção fica clara em um estudo com crianças autistas mais velhas que encontrou menor força dos extensores do joelho, passadas mais curtas e maior cadência. Os pesquisadores excluíram participantes que andavam na ponta dos pés; portanto, esses achados mostram que diferenças de marcha podem existir mesmo sem esse comportamento. [7]

Quando a família deve buscar uma avaliação?
A avaliação é especialmente importante quando o padrão é persistente, está aumentando ou interfere no conforto, na mobilidade ou na participação da criança.
Não é necessário transformar toda elevação ocasional dos calcanhares em motivo de medo. Para muitas famílias, registrar o que acontece antes da consulta ajuda mais do que tentar encontrar uma explicação por conta própria.
Vale observar:
quando a criança começou a andar na ponta dos pés;
se isso acontece raramente, em determinadas situações ou durante grande parte do dia;
se ocorre nos dois pés da mesma forma;
se a criança consegue apoiar os calcanhares espontaneamente ou quando solicitada;
se há rigidez, desconforto, quedas, cansaço ou dificuldade com calçados;
se surgiram fraqueza, perda de habilidades, mudança súbita da marcha ou outros sinais motores.

Como a avaliação da marcha pode ser organizada?
Ela deve combinar histórico, observação direta e exame individualizado. Nenhuma medida isolada explica o comportamento por completo.
O profissional pode investigar o início e a frequência da marcha na ponta dos pés, condições em que aparece, desenvolvimento motor, histórico familiar e possíveis mudanças ao longo do tempo. A observação pode incluir caminhada descalça e com calçados, capacidade de apoiar o calcanhar, simetria e forma de distribuir o peso.
A mobilidade do tornozelo também pode ser examinada. A dorsiflexão é o movimento de aproximar a parte superior do pé da perna. Quando está limitada, o apoio do calcanhar pode se tornar mais difícil. Força, equilíbrio, postura, formato dos pés e repercussões nas atividades também podem fazer parte da análise.
Em algumas pesquisas, plataformas de pressão, vídeos e sistemas tridimensionais foram empregados para medir contato plantar e características das passadas. Esses recursos podem acrescentar dados, mas não são obrigatórios em todas as situações. A escolha depende da dúvida clínica e das necessidades da criança. [2,4,5]

Existe um tratamento único para andar na ponta dos pés?
Não. Os materiais analisados não sustentam uma intervenção universal para todas as crianças autistas.
A decisão de acompanhar ou intervir precisa considerar causa provável, mobilidade articular, frequência do padrão, impacto funcional, tolerância da criança e objetivos definidos com a família. A literatura menciona abordagens motoras, ortopédicas e comportamentais, mas os estudos apresentam amostras, métodos e resultados diferentes.
Caminhar para trás pode ajudar?
Existe apenas evidência inicial. Um estudo de caso acompanhou uma menina autista de 41 meses durante uma semana de linha de base, nove semanas de caminhada para trás em esteira e uma semana sem intervenção.
A área de contato dos dois pés aumentou gradualmente, sugerindo redução do apoio exclusivo no antepé. Parte da mudança foi mantida no acompanhamento, embora de maneira atenuada. Entretanto, o estudo avaliou uma única participante, teve acompanhamento curto e não completou uma segunda fase de intervenção. Os autores afirmam que amostras maiores são necessárias antes de qualquer recomendação clínica. [8]
Esse resultado não deve ser transformado em exercício doméstico sem avaliação. A esteira, a caminhada para trás e qualquer adaptação motora precisam considerar segurança, supervisão e características individuais.
De modo semelhante, o desenvolvimento técnico de um dispositivo ou órtese não comprova eficácia terapêutica. Para demonstrar benefício clínico, são necessários estudos com participantes, medidas adequadas, comparação e acompanhamento.

Perguntas frequentes
Toda criança autista que anda na ponta dos pés precisa de tratamento?
Não. A necessidade depende da frequência, da mobilidade, do conforto, da evolução e do impacto nas atividades. Algumas crianças podem precisar apenas de observação; outras podem se beneficiar de avaliação e acompanhamento individualizados.
Andar na ponta dos pés confirma o diagnóstico de autismo?
Não. O comportamento não é suficiente para diagnosticar TEA e também pode aparecer em crianças não autistas. O diagnóstico considera comunicação, interação social, comportamentos e histórico do desenvolvimento. [1]
Existe uma idade exata para procurar ajuda?
Os materiais utilizam referências diferentes para caracterizar persistência, e não há um aniversário que resolva todos os casos. A continuidade além da fase inicial da caminhada, especialmente com rigidez, assimetria ou impacto funcional, merece ser conversada com um profissional.
Pode ser somente uma preferência da criança?
Não é possível concluir isso apenas pela observação. Um padrão aprendido pode participar do quadro, mas também precisam ser considerados mobilidade, força, desenvolvimento motor e possíveis condições associadas.
A criança apoiar o calcanhar quando solicitada elimina a necessidade de avaliação?
Não necessariamente. Essa capacidade é uma informação útil, mas frequência, persistência e repercussões no cotidiano também importam. O profissional deve analisar o conjunto.
Órteses ou cirurgia são sempre necessárias?
Não. Essas possibilidades não são indicadas automaticamente. As fontes anexadas não sustentam uma sequência única de tratamento para crianças autistas, e intervenções precisam ser definidas após avaliação individualizada.
Conclusão
Andar na ponta dos pés no autismo deve ser compreendido como um padrão motor a ser contextualizado, e não como confirmação diagnóstica, escolha deliberada ou consequência inevitavelmente sensorial.
As evidências mostram diferenças de marcha e associações com outros aspectos do desenvolvimento, mas ainda existem incertezas sobre causas, evolução e melhor intervenção. Observar quando o comportamento ocorre, se está mudando e como afeta a vida da criança fornece informações importantes para a avaliação.
Cada criança possui uma forma própria de se movimentar. O cuidado deve buscar compreensão, conforto, funcionalidade e participação, sem correções automáticas ou promessas.

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Aviso informativo: este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui uma avaliação individualizada realizada por profissionais habilitados. Orientações e intervenções devem considerar o histórico, as necessidades e as características de cada criança.
Referências
1. Sella AC, Ribeiro DM, organizadoras. Análise do comportamento aplicada ao transtorno do espectro autista. 1ª ed. Curitiba: Appris; 2018.
2. Ioannidou A, Vlotinou P, Tsiakiri A, Aggelousis N, Labiris G, Serdari A. Gait patterns in children with autism spectrum disorder: a systematic review. Sports Med Health Sci. 2025. DOI: 10.1016/j.smhs.2025.11.002.
3. Williams CM, Tinley P, Curtin M. Idiopathic toe walking and sensory processing dysfunction. J Foot Ankle Res. 2010;3:16. DOI: 10.1186/1757-1146-3-16.
4. Pomarino D, Emelina A, Heidrich J, et al. NGS-Panel Diagnosis Developed for the Differential Diagnosis of Idiopathic Toe Walking and Its Application for the Investigation of Possible Genetic Causes for the Gait Anomaly. Glob Med Genet. 2023;10:63-71. DOI: 10.1055/s-0043-57230.
5. Camia M, Sacco R, Boncoddo M, et al. Toe walking in children and adolescents with Autism Spectrum Disorder: relationship with sensory and motor functions, language, cognition, and autism severity. Res Autism Spectr Disord. 2024;117:102457. DOI: 10.1016/j.rasd.2024.102457.
6. Menezes KR, Lima US, Cavalcante Neto JL. Physical fitness of children and adolescents with autistic spectrum disorder: a systematic review. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional. 2026;34:e3881. DOI: 10.1590/2526-8910.cto399638812.
7. Wu X, Dickin DC, Bassette L, Ashton C, Wang H. Clinical gait analysis in older children with autism spectrum disorder. Sports Med Health Sci. 2024;6:154-158. DOI: 10.1016/j.smhs.2023.10.007.
8. Akbuga E. Preliminary evidence for backward walking to reduce toe walking in autism spectrum disorder: a single-case experimental pilot study. Acta Psychol. 2026;265:106707. DOI: 10.1016/j.actpsy.2026.106707.
