Sensibilidade auditiva no autismo: entender para acolher
- Fábio Hormigo

- 3 de ago.
- 8 min de leitura

Uma criança pode tapar os ouvidos, tentar sair de um ambiente, chorar ou demonstrar irritação diante de um som que parece comum para outras pessoas. Em crianças autistas, essas reações podem estar relacionadas a diferenças na forma de perceber e responder aos estímulos sensoriais. O DSM-5 inclui a hiper ou hiporreatividade sensorial entre as manifestações possíveis do transtorno do espectro autista, inclusive com reações adversas a sons específicos. [1]
Isso não significa que toda criança autista terá sensibilidade auditiva, nem que uma reação a barulhos seja suficiente para indicar autismo. O mais importante é compreender a experiência individual, observar quando o desconforto aparece e procurar avaliação quando ele interfere na rotina.
Em resumo:
A sensibilidade auditiva em crianças com autismo pode envolver percepção de sons como excessivamente altos ou dolorosos, irritação diante de ruídos específicos ou medo antecipado. As reações variam entre as crianças e não devem ser interpretadas automaticamente como desobediência. Registrar os sons, os contextos e as respostas ajuda profissionais e familiares a planejar apoios individualizados. [2]
O que é sensibilidade auditiva no autismo?
Sensibilidade auditiva é uma expressão ampla usada para descrever desconforto, sofrimento ou dificuldade para tolerar determinados sons. Na literatura científica, também aparece o conceito de tolerância reduzida a sons, que ajuda a nomear o comportamento quando ainda não é possível saber exatamente por que aquele estímulo é aversivo. [2]
Essa expressão é especialmente útil quando a criança não consegue explicar se o som parece alto, doloroso, assustador ou irritante. A reação observada informa que algo está acontecendo, mas não identifica sozinha o tipo de experiência.
Uma criança também pode apresentar respostas diferentes conforme o ambiente, a previsibilidade do ruído, seu estado naquele momento e as características do próprio som. Por isso, uma observação isolada raramente oferece todas as informações necessárias.

Toda reação intensa aos sons é igual?
Não. A literatura atual propõe distinguir pelo menos três experiências: hiperacusia, misofonia e fonofobia. Elas podem aparecer separadamente ou ao mesmo tempo. [2]
Hiperacusia
Na hiperacusia, sons cotidianos podem ser percebidos como excessivamente altos, intensos, desconfortáveis ou dolorosos. Isso não significa necessariamente que a criança escute sons mais fracos do que outras pessoas. A diferença pode estar na forma como a intensidade é percebida e tolerada.
Misofonia
Na misofonia, determinados sons desencadeiam uma reação emocional aversiva, frequentemente marcada por irritação, raiva ou repulsa. O volume não é o único fator importante: um som específico pode incomodar mesmo quando apresentado em baixa intensidade.
Fonofobia
A fonofobia envolve medo de sons ou de situações nas quais eles podem ocorrer. A criança pode ficar apreensiva antes de entrar em um ambiente, evitar atividades ou buscar constantemente sinais de que o ruído acontecerá.
A revisão de Williams e colaboradores ressalta que ainda não se sabe com precisão quanto cada uma dessas condições contribui para as reações auditivas observadas no autismo. [2]
O recrutamento, por sua vez, é um fenômeno relacionado à perda auditiva sensorioneural e não deve ser confundido automaticamente com hiperacusia ou com características do autismo. [3]

A sensibilidade auditiva é frequente em crianças autistas?
Sim, mas as estimativas variam bastante. Uma revisão recente indicou prevalência atual de tolerância reduzida a sons entre 38% e 45% na população autista e ocorrência em algum momento da vida entre 50% e 70%. [2]
Uma revisão anterior encontrou resultados entre 15% e 100%. Essa faixa muito ampla não representa uma contradição simples: os estudos utilizaram observação clínica, questionários familiares, relatos de professores, escalas e testes auditivos diferentes. [3]
Também houve mudanças na terminologia. Pesquisas mais antigas frequentemente agrupavam diversas reações sob o nome “hipersensibilidade auditiva”, enquanto trabalhos recentes procuram separar percepção de volume, dor, irritação e medo.
Portanto, percentuais não devem ser aplicados diretamente a uma criança. Eles mostram que o tema merece atenção, mas não substituem a avaliação de cada caso.

Quais comportamentos a família pode observar?
A família pode perceber que a criança tapa os ouvidos, se afasta, pede para interromper o som, chora, fica tensa, demonstra irritação ou evita determinado lugar. Algumas crianças conseguem nomear o incômodo; outras comunicam a experiência por gestos, mudanças de comportamento ou tentativas de escapar do ambiente.
Em um estudo brasileiro com responsáveis por 11 crianças com sinais clínicos de risco para TEA, 63,6% tiveram resultado indicativo de hipersensibilidade no questionário utilizado. Os sons mencionados como geradores de irritabilidade incluíram palmas, fogos, gritos, ferramentas de construção, canto e toque de celular. [4]
Esses exemplos não formam uma lista universal. O mesmo som pode ser tolerado por uma criança e ser muito aversivo para outra. Até uma mesma criança pode reagir de maneiras diferentes em momentos distintos.
Para muitas famílias, reconhecer que a reação pode comunicar desconforto muda a forma de acolher a situação. Antes de interpretar o comportamento como oposição, vale observar o que ocorreu imediatamente antes e como a criança recuperou sua tranquilidade.

Como os sons podem afetar a rotina?
A intolerância a sons pode dificultar a participação em atividades familiares, escolares e comunitárias. Ambientes ruidosos ou imprevisíveis podem exigir grande esforço da criança, favorecer comportamentos de esquiva e aumentar a ansiedade relacionada a determinadas situações. [2]
Na escola, o desconforto pode ocorrer durante sinais sonoros, atividades coletivas ou outros momentos com muitos estímulos. Em casa, eletrodomésticos, obras próximas ou sons inesperados podem interferir em tarefas e momentos de descanso.
Esse impacto não deve ser avaliado apenas pela intensidade aparente da reação. Também importa observar se a criança deixa de participar de atividades, demora para se reorganizar, passa a antecipar o som com medo ou tem dificuldade para comunicar que precisa de uma pausa.
A meta do apoio não deve ser tornar a criança silenciosa ou impedir qualquer afastamento. O objetivo é compreender suas necessidades, favorecer comunicação e ampliar a participação com segurança e respeito aos limites individuais.

Por que a avaliação individualizada é importante?
A avaliação ajuda a diferenciar possíveis explicações para a reação e a identificar quais apoios fazem sentido. Uma criança pode apresentar audição periférica dentro dos parâmetros esperados e, ainda assim, demonstrar baixa tolerância a determinados sons. Estudos reunidos por Gomes e colaboradores encontraram resultados audiológicos variados, sem uma causa única capaz de explicar todas as manifestações. [3]
O relato da família é valioso porque reúne observações de diferentes momentos da rotina. Entretanto, questionários e entrevistas são medidas indiretas. Eles devem ser combinados, quando indicado, com observação direta, histórico do desenvolvimento e avaliação auditiva conduzida por profissionais habilitados. [4,5]
Informações úteis incluem:
qual som ocorreu;
onde e em que situação;
se era esperado ou repentino;
qual foi a resposta da criança;
quanto tempo o desconforto durou;
o que ajudou na recuperação;
se houve mudança na participação depois do episódio.
Esse registro não deve ser usado para rotular a criança. Ele organiza informações para que a equipe compreenda melhor o contexto e não se baseie apenas em impressões gerais.

Como apoiar a criança com segurança?
O primeiro cuidado é levar o desconforto a sério. A criança não precisa provar que o som é intenso para que sua experiência seja respeitada.
Durante um episódio, pode ser necessário reduzir um ruído evitável, permitir afastamento temporário ou oferecer uma forma acessível de pedir pausa. Essas medidas são apoios imediatos e não substituem a investigação das causas ou um plano individualizado.
No cotidiano, a família pode:
Identificar padrões. Observe sons, ambientes, horários e situações que antecedem as reações.
Avisar sobre ruídos previsíveis. Quando possível, uma informação simples pode diminuir a surpresa.
Favorecer comunicação. Gestos, palavras, figuras ou outros recursos podem ajudar a criança a indicar desconforto e solicitar intervalo.
Compartilhar informações. Escola, familiares e profissionais podem registrar o que observam e combinar respostas consistentes.
Reavaliar os apoios. Uma estratégia útil em determinada situação pode não funcionar em todas as outras.
Protetores ou abafadores não devem ser apresentados como solução universal. Os materiais científicos fornecidos não sustentam uma recomendação igual para todas as crianças. A necessidade, o momento de uso e os possíveis efeitos sobre comunicação e participação precisam ser analisados individualmente.
Também é importante evitar exposições forçadas ou tentativas domésticas de “acostumar” a criança. Quando uma intervenção com sons for considerada, ela deve partir de avaliação adequada, objetivos definidos e monitoramento profissional.

Existe tratamento comprovado para a sensibilidade auditiva no autismo?
Ainda não há um procedimento único, suficientemente comprovado, que possa ser recomendado para todas as pessoas autistas com intolerância a sons. A revisão de Williams e colaboradores encontrou evidências insuficientes para indicar um tratamento comportamental ou farmacológico específico para reduzir a gravidade ou o impacto funcional do problema. [2]
Existem relatos e estudos limitados sobre exposição gradual em situações relacionadas ao medo de sons. Entretanto, os autores observam que não foi demonstrado se esses procedimentos modificam a percepção de volume ou de dor. Os resultados não devem ser generalizados para hiperacusia, misofonia ou qualquer reação auditiva sem avaliação. [2]
Isso não significa que nada possa ser feito. Significa que o apoio precisa considerar o tipo de reação, as habilidades de comunicação, os ambientes frequentados, os objetivos da criança e as evidências disponíveis. Uma boa avaliação também permite acompanhar se as adaptações realmente favorecem participação e bem-estar.

Perguntas frequentes
Sensibilidade a sons significa que a criança é autista?
Não. Uma reação intensa a sons, isoladamente, não confirma autismo. O diagnóstico do TEA considera um conjunto de características do desenvolvimento, da comunicação social e dos padrões restritos ou repetitivos, além de avaliação clínica realizada por profissionais habilitados. [1]
Toda criança autista apresenta sensibilidade auditiva?
Não. As experiências sensoriais são heterogêneas. Algumas crianças apresentam tolerância reduzida a sons; outras podem demonstrar pouca resposta a determinados estímulos, buscar experiências sonoras ou não apresentar dificuldades auditivas relevantes.
A criança pode ter sensibilidade mesmo com exame auditivo normal?
Sim. Estudos relatam intolerância a sons em pessoas com limiares auditivos considerados normais. Isso não elimina a importância da avaliação audiológica, mas mostra que a reação não pode ser explicada apenas pela capacidade de detectar sons. [2,3]
É possível ter incômodo apenas com um som específico?
Sim. Na misofonia ou na fonofobia, determinados sons podem desencadear irritação ou medo, mesmo que outros ruídos sejam tolerados. Para diferenciar essas experiências, é necessário compreender o que a criança sente, como reage e em quais contextos o comportamento ocorre.
A família deve insistir até a criança se acostumar?
Não é indicado forçar exposições por conta própria. A criança pode estar sentindo dor, desconforto ou medo. As evidências sobre exposição são limitadas e não sustentam a aplicação de um protocolo único. Qualquer intervenção deve ser individualizada e acompanhada.
A escola pode contribuir com a avaliação?
Sim. Professores podem registrar os sons, os ambientes, as respostas observadas e os apoios que favoreceram a reorganização. Essas informações complementam o relato familiar e ajudam a compreender se as dificuldades aparecem em diferentes contextos. [3,5]
Conclusão
A sensibilidade auditiva no autismo não corresponde a uma única experiência. Um som pode ser percebido como alto ou doloroso, desencadear irritação específica ou provocar medo e antecipação. Observar essas diferenças ajuda a família a substituir julgamentos por compreensão.
Como cada criança apresenta necessidades próprias, o próximo passo deve ser organizar as observações e buscar avaliação individualizada quando o desconforto limita a comunicação, a participação ou a rotina.

Como a Clínica Conecta Kids pode orientar sua família?
Caso sua família tenha dúvidas sobre a sensibilidade a sons ou sobre quais profissionais podem contribuir para uma avaliação individualizada, converse com a Clínica Conecta Kids, que atende famílias de Guarulhos e da Grande São Paulo.
Aviso informativo: este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui uma avaliação individualizada realizada por profissionais habilitados. Orientações e intervenções devem considerar o histórico, as necessidades e as características de cada criança.
Referências
American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed; 2014. ISBN 978-85-8271-089-0.
Williams ZJ, He JL, Cascio CJ, Woynaroski TG. A review of decreased sound tolerance in autism: definitions, phenomenology, and potential mechanisms. Neurosci Biobehav Rev. 2021;121:1-17. doi:10.1016/j.neubiorev.2020.11.030.
Gomes E, Pedroso FS, Wagner MB. Hipersensibilidade auditiva no transtorno do espectro autístico. Pró-Fono Rev Atual Cient. 2008;20(4):279-284.
Costa KTL, Giacchini V, Cáceres-Assenço AM, Araújo ES. Percepção dos pais sobre hipersensibilidade auditiva de crianças com sinais clínicos de risco para o Transtorno do Espectro do Autismo. Cad Bras Ter Ocup. 2022;30:e3038. doi:10.1590/2526-8910.ctoAO23033038.
Sella AC, Ribeiro DM, organizadoras. Análise do comportamento aplicada ao transtorno do espectro autista. 1. ed. Curitiba: Appris; 2018. 323 p. ISBN 978-85-473-1944-1.



