Autismo não verbal: caminhos para apoiar a comunicação
- Fábio Hormigo

- 11 de ago.
- 9 min de leitura

Quando uma criança autista utiliza poucas palavras ou não se comunica pela fala, é comum que a família tenha dúvidas sobre o que ela compreende, como pode expressar suas necessidades e quais formas de apoio devem ser consideradas.
O primeiro ponto importante é reconhecer que fala e comunicação não são sinônimos. Uma criança pode não falar e, ainda assim, comunicar-se por gestos, olhares, movimentos, expressões, objetos, imagens, escrita ou dispositivos. O apoio deve partir da forma como ela já se expressa e ampliar suas possibilidades de participação, sem reduzir sua capacidade ao número de palavras pronunciadas.
Em resumo:
O chamado autismo não verbal descreve crianças autistas que utilizam pouca ou nenhuma fala funcional, mas não determina sua inteligência, compreensão ou potencial. Para ajudar, é importante observar todas as formas de comunicação, oferecer recursos acessíveis, responder às tentativas da criança e buscar uma avaliação individualizada. O objetivo principal deve ser construir uma comunicação funcional e confiável.
O que significa autismo não verbal?
Autismo não verbal não é uma categoria diagnóstica separada. A expressão é usada para descrever pessoas autistas que não utilizam palavras faladas ou que apresentam fala muito limitada no cotidiano.
O DSM-5 permite especificar se o Transtorno do Espectro Autista ocorre com ou sem comprometimento de linguagem, mas não estabelece “autismo não verbal” como um diagnóstico independente.[1] Além disso, as dificuldades de comunicação no TEA podem aparecer de maneiras muito diferentes entre as crianças.
A própria literatura científica não utiliza uma definição única. Em uma revisão sistemática de estudos de intervenção, Koegel e colaboradores encontraram critérios bastante variados para os termos “não verbal” e “minimamente verbal”. Algumas pesquisas consideravam a ausência de palavras funcionais; outras incluíam crianças com menos de 5, 10, 20 ou 25 palavras, entre diferentes parâmetros.[2]
Por isso, uma descrição mais útil deve responder a perguntas concretas:
A criança utiliza alguma palavra de forma espontânea?
Ela repete palavras ou frases?
Comunica escolhas apontando, entregando ou conduzindo alguém?
Usa gestos, imagens, escrita ou equipamentos?
Compreende instruções simples em situações familiares?
Consegue protestar, solicitar ajuda ou mostrar desconforto?
Essas informações ajudam a compreender o perfil atual sem transformar um rótulo amplo em uma conclusão sobre tudo o que a criança sabe ou pode aprender.

Não falar significa não compreender?
Não. A ausência de fala, isoladamente, não permite concluir que a criança não compreende, não pensa ou apresenta deficiência intelectual.
Fala é a produção oral de sons e palavras. Linguagem envolve compreender e organizar significados. Comunicação é ainda mais ampla: inclui diferentes maneiras de trocar informações, expressar necessidades, compartilhar interesses e participar das relações.
Uma criança pode ter dificuldades para produzir palavras e compreender parte do que escuta. Outra pode compreender mais do que consegue demonstrar oralmente. Também pode haver diferenças conforme o ambiente, o interlocutor, o nível de apoio e a forma como a tarefa é apresentada.
A revisão de Koegel e colaboradores alerta que avaliações padronizadas podem subestimar as habilidades de pessoas autistas com comunicação muito limitada, especialmente quando dependem de respostas faladas. Os autores recomendam combinar diferentes fontes de informação, como observação em situações naturais, interação com pessoas conhecidas, relatos de familiares e professores, amostras de linguagem e instrumentos apropriados.[2]
Para a família, isso significa evitar duas conclusões precipitadas: presumir que a criança compreende tudo ou supor que não compreende nada. O caminho mais responsável é observar, avaliar e oferecer oportunidades para que ela demonstre suas habilidades por diferentes meios.

Como uma criança autista sem fala pode se comunicar?
A criança pode utilizar uma combinação de recursos corporais, visuais, gráficos e tecnológicos. Esses meios não devem ser vistos como inferiores à fala: eles podem constituir formas legítimas e funcionais de comunicação.
Entre as possibilidades estão:
apontar para pessoas, objetos, fotografias ou símbolos;
usar gestos convencionais ou aprendidos;
entregar ou aproximar um objeto;
escrever, digitar ou selecionar palavras;
utilizar pranchas e livros de comunicação;
escolher pictogramas;
usar aplicativos ou dispositivos que produzem voz;
combinar gestos, símbolos, vocalizações e palavras.
A Comunicação Aumentativa e Alternativa, conhecida pela sigla CAA, reúne técnicas, estratégias e recursos destinados a apoiar pessoas com dificuldades de compreensão ou expressão. Ela pode complementar a fala existente ou oferecer uma alternativa quando a comunicação oral não é suficiente.[3]
O recurso não deve ser escolhido apenas porque é popular ou tecnicamente sofisticado. A decisão precisa considerar as habilidades motoras e visuais da criança, sua compreensão, os ambientes em que se comunica, as pessoas que interagem com ela e a possibilidade de acesso constante ao sistema.
Um recurso guardado, disponível somente durante uma sessão ou desconhecido pelos parceiros de comunicação terá pouca utilidade no cotidiano.

O uso de imagens ou dispositivos impede o desenvolvimento da fala?
As fontes fornecidas não sustentam a ideia de que a CAA impeça o desenvolvimento da fala. Pelo contrário, o estudo do método DHACA registrou evolução na comunicação expressiva por meio do livro de comunicação e também da fala em parte dos participantes.[3]
Nesse estudo, 12 crianças autistas de 3 a 6 anos, inicialmente classificadas como não verbais ou minimamente verbais, participaram de 20 sessões individuais de atendimento fonoaudiológico. Dez apresentaram aumento geral nas habilidades avaliadas. Sete passaram a ser classificadas no padrão verbal ao final, enquanto cinco permaneceram não verbais.[3]
Também foram observados avanços em nomeação, cumprimentos, comentários e uso de frases mais extensas. No entanto, esses resultados precisam ser interpretados com cautela: tratava-se de uma série de casos pequena, sem grupo de comparação, com participantes de níveis de suporte um ou dois. O próprio estudo recomenda pesquisas maiores, mais prolongadas e com grupos mais diversos.[3]
Portanto, a CAA não deve ser apresentada como promessa de fala. Sua finalidade imediata é permitir que a criança se comunique de modo mais claro, autônomo e funcional. Quando a fala se desenvolve, os recursos podem continuar sendo úteis como apoio.

Como auxiliar a comunicação no cotidiano?
A ajuda começa ao reconhecer e responder às formas de expressão que a criança já utiliza. Depois, a família e a equipe podem ampliar gradualmente esse repertório.
Observe antes de ensinar
Registre como a criança costuma:
pedir algo;
recusar;
solicitar continuidade;
chamar outra pessoa;
pedir ajuda;
indicar dor ou desconforto;
escolher entre opções;
demonstrar interesse;
encerrar uma atividade.
Um comportamento pode exercer uma função comunicativa mesmo quando ainda não é claro para todos. Puxar a mão de um adulto, empurrar um objeto ou aproximar-se de um local pode ser a maneira disponível de expressar uma necessidade.
A observação não significa aceitar qualquer situação sem intervenção. Ela ajuda a descobrir o que a criança está tentando comunicar e qual resposta mais acessível pode ser ensinada para a mesma finalidade.
Responda às tentativas comunicativas
Quando a criança aponta, entrega uma figura, vocaliza ou olha para um objeto, a resposta do adulto ensina que comunicar-se produz efeitos.
É possível nomear de forma simples o que parece estar acontecendo: “Você quer água”, “Você quer mais” ou “Você não quer”. A interpretação deve permanecer aberta a correções. Caso a criança rejeite o que foi oferecido, o adulto pode apresentar opções e observar sua resposta.
Para muitas famílias, perceber pequenos sinais de intenção comunicativa muda a interação: o foco deixa de estar apenas na palavra ausente e passa a incluir o que a criança já consegue expressar.
Ofereça escolhas compreensíveis
Escolhas podem ser apresentadas com objetos, fotografias, pictogramas, palavras escritas ou outro recurso que a criança reconheça. Duas opções claras costumam ser mais acessíveis do que perguntas muito amplas.
Depois de apresentar as alternativas, é importante oferecer tempo para a resposta. Repetir a pergunta rapidamente ou responder pela criança pode dificultar sua participação.
Modele o recurso de comunicação
Modelar significa demonstrar como o sistema pode ser utilizado. O adulto pode apontar para símbolos enquanto fala, mostrando que o recurso serve para pedir, comentar, recusar, perguntar e conversar.
No método DHACA, os interlocutores utilizavam o livro de comunicação durante as interações e ofereciam diferentes níveis de ajuda, retirados gradualmente conforme o desempenho da criança.[3] Esse exemplo reforça que o sistema não deve ser entregue à criança sem ensino e participação dos adultos.

Por que ensinar mais do que apenas pedidos?
Pedir é uma função importante, mas a comunicação não se limita a obter objetos ou alimentos. A criança também precisa de meios para protestar, pedir pausa, comentar, cumprimentar, mostrar algo, fazer perguntas, expressar sentimentos e compartilhar acontecimentos.
Na Análise do Comportamento, o pedido pode ser estudado como um “mando”: uma resposta por meio da qual a pessoa sinaliza ao interlocutor algo que deseja ou necessita. A resposta não precisa ser necessariamente falada; diferentes formas podem exercer função comunicativa.[4]
A revisão de Albuquerque, Marques e Ribeiro analisou 12 estudos sobre o ensino de mandos a crianças e adolescentes autistas. Os procedimentos variaram e incluíram pedidos vocais, gestuais, digitados e realizados em dispositivos. Todos os participantes aprenderam pelo menos dois pedidos nos estudos incluídos, embora as pesquisas apresentassem limitações importantes.[4]
A generalização para outros contextos não foi avaliada em 33,3% dos estudos, e a manutenção ao longo do tempo não foi verificada em 58,3%.[4] Isso mostra por que não basta observar uma resposta durante uma sessão. É necessário verificar se a criança consegue utilizá-la com outras pessoas, em diferentes lugares e quando realmente precisa.
Depois que pedidos básicos se tornam mais consistentes, o planejamento deve ampliar as funções comunicativas. O desenvolvimento não precisa seguir uma sequência rígida igual para todas as crianças.
Qual é a participação da família?
A família é uma parceira importante porque conhece situações, preferências, rotinas e formas de expressão que podem não aparecer durante uma avaliação breve.
No estudo do método DHACA, os responsáveis participaram de uma oficina sobre CAA, receberam orientações semanais e relataram o uso do livro em casa e na escola. Os autores observaram que os dois participantes sem evolução significativa no escore geral também não tiveram continuidade regular do recurso em casa, segundo os registros familiares.[3]
Essa relação não prova que a ausência de uso doméstico tenha causado os resultados, pois o estudo não foi desenhado para estabelecer essa causalidade. Ainda assim, reforça a importância de planejar recursos que sejam viáveis e compreendidos pelas pessoas que convivem com a criança.
Participar não significa transformar toda a rotina familiar em sessão terapêutica. Significa saber como reconhecer, modelar e apoiar a comunicação em momentos reais, respeitando os limites da criança e da própria família.

Quando buscar uma avaliação profissional?
A avaliação é indicada quando há dúvidas sobre compreensão, desenvolvimento da fala, perda de habilidades, dificuldade intensa para expressar necessidades ou necessidade de escolher um sistema de comunicação.
O DSM-5 destaca que o TEA deve ser descrito considerando, entre outros aspectos, o funcionamento comunicativo e a presença ou ausência de comprometimento intelectual e de linguagem.[1] Essas dimensões não devem ser deduzidas apenas pela observação de que a criança fala pouco.
Uma avaliação cuidadosa pode examinar:
comunicação espontânea em situações naturais;
compreensão de palavras, instruções e símbolos;
formas atuais de pedir, recusar e comentar;
imitação de sons e movimentos;
repertório de gestos e vocalizações;
habilidades motoras necessárias ao recurso;
uso de comunicação em casa e na escola;
interesses e preferências;
possíveis barreiras sensoriais ou ambientais.
A revisão sistemática recomenda combinar observação direta, amostras de comunicação, relatos de familiares e professores e medidas adequadas às características da criança.[2] O objetivo não é apenas classificá-la, mas compreender como criar oportunidades reais de expressão.

Perguntas frequentes
Criança autista não verbal pode aprender a falar?
Algumas crianças desenvolvem palavras e frases; outras permanecem com pouca ou nenhuma fala e utilizam principalmente CAA. As fontes não permitem prever individualmente qual será o percurso. O apoio deve garantir uma forma de comunicação funcional no presente.
É correto dizer “não verbal” ou “não falante”?
Os dois termos aparecem nos materiais. “Não falante” pode ser mais preciso quando a dificuldade está na produção da fala, pois “verbal” também pode incluir linguagem escrita e simbólica. O mais importante é respeitar a preferência da pessoa e descrever suas habilidades concretas.
A criança precisa olhar nos olhos para se comunicar?
Contato visual não é requisito para reconhecer uma tentativa comunicativa. A comunicação pode ocorrer por gestos, orientação corporal, símbolos, objetos, escrita, vocalizações e outros meios. A avaliação deve observar o conjunto das respostas.
A CAA só deve ser usada depois que outras tentativas falharem?
Os materiais não sustentam a necessidade de esperar. Quando a fala não atende às necessidades comunicativas, a avaliação de recursos alternativos ou aumentativos pode ser considerada. A escolha e o ensino devem ser individualizados.
Comportamentos difíceis podem ser uma forma de comunicação?
Alguns comportamentos podem ocorrer quando a criança não dispõe de uma forma clara e eficiente para pedir, recusar, obter ajuda ou interromper uma situação. Isso não permite presumir a função sem avaliação. É necessário observar o contexto e ensinar alternativas adequadas quando indicado.[4,5]
Conclusão
Apoiar uma criança autista com pouca ou nenhuma fala começa por reconhecer que comunicação é maior do que oralidade. Gestos, imagens, escrita, vocalizações e dispositivos podem permitir escolhas, pedidos, recusas, comentários e participação nas relações.
Os termos “não verbal” e “minimamente verbal” não possuem definições uniformes na pesquisa e não informam, sozinhos, quanto a criança compreende ou pode aprender. Uma avaliação individualizada deve identificar o repertório atual, as barreiras presentes e os recursos mais acessíveis.
O caminho não é esperar passivamente pela fala nem prometer que ela surgirá. É oferecer, desde agora, meios consistentes para que a criança seja compreendida e tenha maior possibilidade de expressar suas necessidades, ideias e interesses.

Como a Clínica Conecta Kids pode orientar sua família?
Cada criança apresenta características e necessidades próprias. Para conversar sobre dúvidas relacionadas à comunicação e compreender quais caminhos podem ser considerados para sua família, fale com a Clínica Conecta Kids pelo WhatsApp.
A Clínica Conecta Kids atende famílias de Guarulhos e da Grande São Paulo.
Aviso informativo: este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui uma avaliação individualizada realizada por profissionais habilitados. Orientações e intervenções devem considerar o histórico, as necessidades e as características de cada criança.
Referências
American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2014.
Koegel LK, Bryan KM, Su PL, Vaidya M, Camarata S. Definitions of nonverbal and minimally verbal in research for autism: a systematic review of the literature. J Autism Dev Disord. 2020;50(8):2957-2972. DOI: 10.1007/s10803-020-04402-w.
Barbosa FCOL, Montenegro ACA, Queiroga BAM. Os efeitos do método DHACA na comunicação expressiva em crianças com transtorno do espectro do autismo. CoDAS. 2025;37(3):e20240148. DOI: 10.1590/2317-1782/e20240148pt.
Albuquerque SCSO, Marques LB, Ribeiro DM. O ensino do operante verbal mando para crianças e adolescentes com autismo: uma revisão sistemática da literatura. Rev Bras Ter Comport Cogn. 2021;23:1-20. DOI: 10.31505/rbtcc.v23i1.1454.
Sella AC, Ribeiro DM, organizadoras. Análise do comportamento aplicada ao transtorno do espectro autista. 1ª ed. Curitiba: Appris; 2018.



