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Atenção compartilhada no autismo: entenda essa habilidade

  • Foto do escritor: Fábio Hormigo
    Fábio Hormigo
  • 30 de jul.
  • 8 min de leitura
Menino e terapeuta sorrindo apontam para foguete de brinquedo em sala colorida, com blocos e lápis ao redor.

Quando uma criança olha para um brinquedo, chama outra pessoa e tenta dividir com ela aquele interesse, há mais do que atenção a um objeto. Existe uma troca social envolvendo a criança, o parceiro e algo que ambos observam.


Essa coordenação é chamada de atenção compartilhada. Ela pode aparecer por meio do olhar, de gestos, do apontar, de vocalizações ou do ato de mostrar um objeto. No autismo, seu desenvolvimento pode ocorrer de formas diferentes.


Compreender essas diferenças ajuda as famílias a observar a comunicação com mais clareza, sem transformar um comportamento isolado em diagnóstico.


Em resumo:

A atenção compartilhada ocorre quando criança e parceiro social coordenam a atenção em torno de um objeto ou acontecimento. A criança pode responder ao olhar ou ao gesto de alguém, ou iniciar a troca para mostrar algo. Dificuldades nessa habilidade podem aparecer no autismo, mas precisam ser compreendidas dentro do desenvolvimento geral e por avaliação individualizada.



O que é atenção compartilhada?


A atenção compartilhada é uma interação que envolve três elementos: a criança, outra pessoa e um objeto ou acontecimento de interesse comum. O ponto central não é apenas olhar para a mesma coisa, mas coordenar a atenção com uma finalidade comunicativa. [1,2]


Imagine que uma criança vê um brinquedo diferente, olha para o adulto, aponta para o brinquedo e depois volta a observar a reação dele. Essa alternância pode indicar que ela deseja compartilhar a experiência, e não somente alcançar o objeto.


A habilidade pode incluir diferentes comportamentos:

  • acompanhar o olhar de outra pessoa;

  • seguir um gesto de apontar;

  • mostrar ou levar um objeto;

  • apontar para dividir um interesse;

  • alternar a atenção entre a pessoa e o objeto;

  • usar gestos ou vocalizações para envolver alguém na situação.


Contato visual, isoladamente, não define atenção compartilhada. Uma criança pode olhar brevemente para o rosto, usar a orientação corporal, acompanhar o apontar ou trazer um objeto sem sustentar um olhar direto por muito tempo. O que deve ser observado é a coordenação da comunicação entre pessoa, objeto e contexto.


Mãe observa bebê sorridente apontando para a direita, em sala clara com brinquedos ao fundo.

Qual é a diferença entre iniciar e responder?


Responder significa acompanhar uma tentativa de compartilhamento feita por outra pessoa. Iniciar significa criar a oportunidade de troca.


Na resposta à atenção compartilhada, o adulto pode apontar para uma figura e a criança acompanha o gesto, direcionando a atenção para o local indicado. Também pode seguir a mudança do olhar do parceiro em direção a um brinquedo.


Na iniciativa de atenção compartilhada, a própria criança tenta direcionar o interesse da outra pessoa. Ela pode apontar para algo, mostrar um objeto, produzir um som e alternar o olhar para verificar a reação do parceiro.


Essas duas formas estão relacionadas, mas não são equivalentes. Uma criança pode responder com mais frequência do que inicia. Também pode acompanhar gestos em situações próximas e encontrar maior dificuldade quando o objeto está distante ou fora do seu campo visual.


Outro cuidado importante é diferenciar compartilhar de pedir. Apontar para um pote porque deseja que o adulto o alcance possui uma finalidade instrumental. Apontar para um animal na rua e buscar a reação do adulto possui uma finalidade mais declarativa: dividir o interesse. Os dois comportamentos comunicam algo, mas exercem funções diferentes. [3]


Pai e filho sorriem enquanto brincam com um barco azul em sala iluminada, com brinquedos ao fundo.

Como a atenção compartilhada se relaciona ao autismo?


Dificuldades para coordenar a atenção social podem fazer parte da apresentação do autismo, especialmente no domínio da comunicação e da interação social. Isso não significa que toda criança autista não compartilhe atenção ou que a ausência de um gesto isolado confirme TEA.


O DSM-5 descreve como possíveis manifestações precoces a dificuldade para apontar, mostrar ou trazer objetos com o propósito de compartilhar interesse, além da dificuldade para seguir o apontar ou o olhar de outra pessoa. Esses comportamentos fazem parte de uma avaliação mais ampla, que também considera reciprocidade social, comunicação verbal e não verbal, relacionamentos e padrões restritos ou repetitivos. [1]


Um estudo longitudinal avaliou 32 bebês aos oito, 12 e 18 meses. Aos 18 meses, quatro apresentaram marcadores de risco no M-CHAT. Menor iniciativa de atenção compartilhada aos oito meses ficou próxima da significância estatística, com p=0,051. A resposta à atenção compartilhada aos 12 meses apresentou associação significativa com os marcadores aos 18 meses, com p=0,014. [3]


Esses números precisam ser interpretados com cautela. A amostra foi pequena, apenas quatro crianças apresentaram o desfecho de risco e o M-CHAT é um instrumento de rastreio. O estudo não demonstrou que a atenção compartilhada, sozinha, diagnostique autismo.


Para as famílias, o mais útil é observar o desenvolvimento ao longo do tempo. Uma situação pontual pode variar conforme o interesse da criança, o ambiente, a familiaridade com a pessoa e as características da atividade.


Menino mostra avião de brinquedo azul a médica sorridente em sala clara, enquanto ela anota em prancheta.

Olhar para o mesmo brinquedo já é atenção compartilhada?


Não necessariamente. Duas pessoas podem olhar para o mesmo objeto sem que exista coordenação social entre elas.


Um estudo exploratório analisou dez minutos de avaliação de duas crianças de 21 meses. A criança que estava em investigação para TEA direcionou o olhar 56 vezes aos brinquedos, mas não apresentou episódio classificado como atenção compartilhada nem olhou para a interlocutora. A criança com desenvolvimento típico apresentou 37 olhares aos brinquedos e 18 episódios de atenção compartilhada. [2]


O estudo mostra por que a trajetória e a finalidade do olhar podem ser mais informativas do que a contagem total. Entretanto, ele comparou somente duas crianças e não fornece uma regra aplicável a todas as famílias.


Uma criança pode estar muito envolvida com um objeto e ainda não tentar incluir outra pessoa naquele momento. Também pode compartilhar interesse por meio de gestos discretos ou em contextos específicos. Por isso, a observação precisa considerar diferentes situações, parceiros e formas de comunicação.


Pai e filho sorrindo montam blocos coloridos à mesa, em casa, num clima carinhoso.

Por que essa habilidade é importante para a comunicação?


A atenção compartilhada cria oportunidades para relacionar palavras, gestos, pessoas e acontecimentos. Durante uma troca, o adulto pode nomear o que ambos observam, responder à iniciativa da criança ou ampliar a brincadeira.


Uma análise comportamental de Oliveira e Gil propõe que esses episódios participem da construção de repertórios verbais. Quando adulto e bebê coordenam a atenção em torno de um objeto, as respostas de um passam a integrar o contexto de aprendizagem do outro. As autoras apresentam essa relação como uma proposta teórica apoiada em observações naturalísticas preliminares, não como prova de que um único comportamento cause a aquisição da linguagem. [4]


Outro estudo avaliou 113 crianças autistas, entre 40 e 98 meses, sem deficiência intelectual grave. Na análise principal, realizada com 106 participantes, melhores indicadores de atenção compartilhada estiveram associados a um Índice de Processamento Mental mais alto. O modelo explicou 10% da variação, com p=0,0015. [5]


Os autores destacam que correlação não demonstra causalidade. Também observaram que o próprio teste cognitivo exigia acompanhar instruções, gestos e objetos apresentados pelo avaliador. Portanto, a atenção compartilhada não deve ser usada isoladamente para estimar a inteligência de uma criança.


Ícones de mulher, homem e carro ligados por linha pontilhada sobre fundo azul claro.

A atenção compartilhada pode ser ensinada?


Alguns comportamentos de resposta podem ser ensinados, mas os resultados não permitem prometer que todas as crianças aprenderão da mesma maneira nem que a iniciativa surgirá automaticamente.


Uma dissertação de 2024 acompanhou três crianças autistas de quatro a cinco anos. O procedimento utilizou adaptações de três tarefas: seguir o apontar, acompanhar a apresentação de um livro e localizar um objeto apresentado pelo adulto. As três crianças aprenderam respostas de atenção compartilhada nas tarefas ensinadas. [6]


Apesar disso, não houve emergência da iniciativa de compartilhar atenção. Em outras palavras, aprender a responder à ação do adulto não produziu, sem ensino específico, o comportamento de iniciar a troca.


Esse resultado ajuda a evitar uma simplificação frequente. “Atenção compartilhada” não é uma capacidade única que passa de ausente para presente. Ela reúne comportamentos com diferentes níveis de complexidade, condições e funções.


A mesma pesquisa precisou ajustar estímulos aos interesses das crianças e realizar mais tentativas em algumas tarefas. Isso reforça a importância da avaliação individualizada, de objetivos definidos e do acompanhamento dos resultados, em vez da aplicação automática de uma sequência igual para todos.


Mão move um peão azul entre peças rosa e bege, com uma bola de madeira sobre mesa clara.

O que as famílias podem observar no cotidiano?


A família pode observar como a criança envolve outras pessoas em situações significativas, sem transformar cada brincadeira em teste.


Durante livros, brinquedos, passeios ou atividades da rotina, algumas perguntas podem ajudar:

  • A criança acompanha o apontar ou a mudança de olhar de outra pessoa?

  • Ela mostra, traz ou aponta para algo sem estar apenas pedindo que o objeto seja entregue?

  • Procura a reação do parceiro depois de perceber algo interessante?

  • Responde de maneira diferente conforme a pessoa, o ambiente ou o tipo de atividade?

  • Usa gestos, vocalizações ou orientação corporal para dividir a experiência?

  • A resposta aparece mais quando o objeto está perto do que quando está distante?


Partir de objetos ou atividades que já despertam interesse pode facilitar o engajamento. O adulto pode mostrar algo, fazer um gesto simples e dar tempo para a criança responder. A finalidade não é exigir contato visual prolongado, mas favorecer oportunidades de comunicação compartilhada.


Também é útil registrar exemplos concretos: o que aconteceu antes, qual era o objeto, quem estava presente e como a criança respondeu. Essas informações podem ajudar profissionais habilitados a compreender o repertório da criança em diferentes contextos.


Para muitas famílias, perceber formas mais sutis de comunicação muda a qualidade da observação. A criança não precisa se comunicar exatamente como outra pessoa para que suas iniciativas sejam reconhecidas e acolhidas.


Mãe e filha sorrindo à mesa, menina aponta para algo à esquerda, em sala clara com plantas.

Perguntas frequentes

Atenção compartilhada é o mesmo que contato visual?

Não. O contato visual pode participar da interação, mas a atenção compartilhada envolve coordenar a atenção entre pessoa e objeto ou acontecimento. Gestos, apontar, mostrar, seguir o olhar e orientar o corpo também podem fazer parte.

Sim. O autismo é heterogêneo, e a frequência, a forma e o contexto desses comportamentos variam. Algumas crianças respondem mais do que iniciam; outras compartilham interesses de maneiras discretas ou em situações específicas.

Não. A ausência ou redução do apontar pode ser um sinal a ser investigado, mas nenhum comportamento isolado confirma TEA. A avaliação considera o desenvolvimento, a comunicação, a interação social e outros critérios.

O pedido é uma forma de comunicação, mas pode ter uma função diferente. Quando a criança aponta para obter algo, a finalidade é instrumental. Quando aponta para dividir o interesse e busca a reação do parceiro, há uma finalidade declarativa.

Não necessariamente. No estudo com três crianças, as respostas ensinadas foram aprendidas, mas a iniciativa não emergiu. Os repertórios podem precisar de objetivos e procedimentos distintos. [6]

Os materiais fornecidos descrevem manifestações durante o primeiro ano, especialmente por volta de oito a 12 meses, com desenvolvimento posterior. Há divergências sobre a segurança de interpretar sinais muito precoces; por isso, a trajetória da criança é mais informativa do que uma observação isolada. [3]


Conclusão


A atenção compartilhada ajuda a compreender como a criança coordena pessoas, objetos e intenções comunicativas. No autismo, essa habilidade pode se desenvolver com diferenças na frequência, na forma de resposta e na iniciativa.


As evidências fornecidas mostram relevância para a comunicação social e possibilidades de ensino, mas também apresentam amostras pequenas, associações que não provam causalidade e resultados que variam entre comportamentos. Observar a criança em diferentes contextos e buscar avaliação individualizada é mais seguro do que interpretar um único gesto.


Duas mãos formando um coração com as пальmas, em fundo suave rosa e azul com luz brilhante ao centro.

Como a Clínica Conecta Kids pode orientar sua família?


Caso sua família tenha dúvidas sobre a comunicação, a interação social ou o desenvolvimento da criança, converse com a equipe da Clínica Conecta Kids. O contato pode ajudar a compreender quais próximos passos podem ser considerados de forma individualizada para famílias de Guarulhos e da Grande São Paulo.




Aviso informativo: este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui uma avaliação individualizada realizada por profissionais habilitados. Orientações e intervenções devem considerar o histórico, as necessidades e as características de cada criança.



Referências


  1. American Psychiatric Association. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2014.

  2. Sugahara MK, Silva SC, Scattolin M, Cruz FM, Perissinoto J, Tamanaha AC. Estudo exploratório sobre análise multimodal da atenção compartilhada. Audiol Commun Res. 2022;27:e2447. DOI: 10.1590/2317-6431-2020-2447pt. https://doi.org/10.1590/2317-6431-2020-2447pt

  3. Montagut-Asunción M, Crespo-Martín S, Pastor-Cerezuela G, D’Ocon-Giménez A. Joint Attention and Its Relationship with Autism Risk Markers at 18 Months of Age. Children. 2022;9(4):556. DOI: 10.3390/children9040556. https://doi.org/10.3390/children9040556

  4. Oliveira TP, Gil MSCA. Elementos fundamentais para a aquisição de operantes verbais por bebês: análise comportamental da “atenção compartilhada”. Rev Bras Ter Comp Cogn. 2007;9(2):217-225.

  5. Sano M, Yoshimura Y, Hirosawa T, Hasegawa C, An K, Tanaka S, Naitou N, Kikuchi M. Joint attention and intelligence in children with autism spectrum disorder without severe intellectual disability. Autism Res. 2021;14(12):2603-2612. DOI: 10.1002/aur.2600. https://doi.org/10.1002/aur.2600

  6. Morais MRF. Atenção compartilhada e crianças pequenas com autismo: ensino de resposta e verificação da emergência da iniciativa [dissertação]. São Carlos: Programa de Pós-Graduação em Psicologia, Universidade Federal de São Carlos;



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